Num-Corocô-num-Coróca-mais
Impressões sobre farinha e progresso
O dicionário descreve uma comunidade como sendo um conjunto de habitantes de uma mesma área irmanados por um mesmo legado cultural e histórico. A comunidade de Coroca não é uma comunidade.
Na margem direita do Arapiuns, no sentido de quem sai de Santarém, a Coroca é um povoado pequeno, com certa de 15 famílias espalhadas por uma estradinha de terra que corre por uns 2 quilometros. Navega-se o Tapajós por algumas horas até chegar na entrada do rio Arapiuns, e segue-se mais um tanto. Mesmo sendo de acesso um tanto limitado, precisando-se pegar um barco que sai uma vez por dia, e nem todo dia, não é limitado o suficiente pra que um paulista tenha chegado e montado uma pousada. Estávamos lá pra isso: ficar na pousada do paulista. Isso, e comer farinha.
Os negócios dos paulistas pra essas bandas segue em geral um mesmo roteiro: monta-se a habitação, constrói-se uma relação com os locais, e vende-se essa relação como uma experiência para os turistas que, pra usufruir, pagam a estadia. Na amazônia é cheio. Turismo sustentável é como está sendo chamado.
Uma vez lá, como parte da programação do turismo sustentável, fomos convidados a conhecer o centro comunitário da Coroca: uma grande tenta-redário preparada pra receber turistas. Eu não esqueci do meu objetivo ali: comer farinha. Farinha é uma coisa... Pra paraense, então. É muito fácil achar e tem de todo tipo em todo lugar. Apesar disso, pouca gente já viu de perto a farinha sendo feita. Isso porque a maior parte dos paraenses tá em Belém e Santarém, e a farinha é geralmente fabricada longe desses centros urbanos, muitas vezes em comunidades ribeirinhas distantes, como a Coroca. Eu tava na Coroca! Queria comer farinha. Na conversa com os moradores comentei da minha vontade: se faz farinha aqui? Sim, se faz. Na última casa da vila o Seu Antonio faz farinha. Posso visitar? Pode, amanhã cedinho é só chegar lá. Maravilha.
De manhã cedo fomos. Atrás da farinha. A pousada ficava numa ponta da comunidade, e a casa da farinha na outra. Andando pela estradinha notamos que várias das casas tinham ao seu lado a estrutura típica de casas de farinha. Elas são cobertas da chuva, porque farinha e água só na panela prum pirão e no prato prum xibé. No tacho não funciona. Essas estruturas agora eram usada como um coberto pra guardar bagulho.
Chegamos na casa de farinha e o Seu Antonio tava fazendo a farinha. Qualquer comida fresca e quentinha é muito bom, né? Um pão sendo assado, alho e coentro fritando, e, nesse caso, farinha torrando. Ficamos ali observando e conversando, e o Seu Antonio fechou 3 sacas de farinha. Achei curioso e comentei. Pessoal da Coroca gosta de farinha, hein? Gosta mesmo! Mas não é pra cá não. E me contou a história. Seu Antonio, antes, não era fabricante de farinha. Ele, como todo mundo ali no Arapiuns, fazia a farinha pra ele e pra família comerem. Mas, nos últimos tempos, as famílias pararam de fabricar suas próprias farinhas. Os jovens foram indo embora pra cidade, os velhos foram parando de fazer, e toda a farinha que se come ali na região tinha que vir de algum lugar. Vinha do Seu Antonio. A tradição de cada família manter sua roça e fazer sua farinha tava acabando. Pelo menos ali naquele canto do Arapiuns. Comprava-se comida que vinha de santarém, comprava-se farinha do Seu Antonio.
Levi-strauss, falando sobre o papel do etnólogo no Tristes trópicos, conta a história do viajante. Ele tá falando da busca do etnólogo pela experiência autêntica, intocada. Nessa história, o viajante se encontra preso numa existência dupla, que ele chama de viajante antigo e viajante moderno. Ele conta que o viajante moderno dispõe do conhecimento da vastidão do mundo e da riqueza de outras culturas, e tem sede de descoberta por culturas intocadas. Esse conhecimento se dá da própria exploração dessas culturas, e só a partir desse contato que se gera o conhecimento e estudo pra que possam ser apreciadas. Portanto, esse viajante está condenado a nunca encontrar essa realidade intocada, pois se intocada fosse, não haveria métodos pra se apreender o que ali se encontra. Já o viajante antigo, esse não dispõe de nada disso: o mundo é de fato repleto de novidades. No entanto, justamente por causa disso, lhe faltam ferramentas pra perceber ou apreciar tal realidade.
Me vi na exata mesma situação ali: eu desejava experienciar a realidade onde a farinha ainda era feita por todas as famílias, queria poder provar todas, estudar as diferenças entre elas, as técnicas de cada casa, mas o mesmo desenvolvimento que lançou a farinha como um produto a ser apreciado e valorizado, o progresso que me levou a ouvir falar da Coroca e querer ir lá conhecer, também sugou os jovens pra fora de lá, sufocando a produção de farinha local. Eu era o viajante moderno porque sabia o que já foi, mas nunca poderia experimentar. Quanto ao viajante antigo, também fui, e sou, e somos sempre, porque se deixamos de perceber ou apreciar algo hoje, ignoramos sua valor amanhã.
A coroca não é uma comunidade não porque não parece com uma, mas porque ali não tem mais um legado cultural e histórico comum dividido pelos habitantes. Os velhos são os últimos habitantes da comunidade da coroca, os jovens agora são da comunidade mundo. Apesar disso, a Coroca continuará existindo, e se quiser visitar, dá pra ficar na pousada do paulista.



Isso foi brilhante!
Belíssimo texto